quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Santo Agostinho de Hipona

Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência, sentenciou Santo Agostinho. Por isto, nosso projeto de publicar os comentários dos salmos elaborados por este santo - Enarrationes in psalmos - e torná-lo mais acessível não tem prazo determinado. 



Não há, em Língua Portuguesa, uma publicação, online, com as obras completas de Santo Agostinho, sequer os Comentários aos Salmos. Há em Língua Espanhola: Obras Completas de Santo Agostinho.

Biografias de Santo Agostinho há muitas, extensas e resumidas, como esta em PDF: Biografia de Santo Agostinho, ou mais resumido, ainda, no site dos agostinianos: Santo Agostinho, vida e obra. Por isto, nos poupamos o trabalho de expor, aqui. 

O que vale realçar é que, dentre os Padres da Igreja, ou Pais da Igreja, Santo Agostinho é dos mais conhecidos, consultados e citados. Seu livro Confissões (pdf) é um dos grandes clássicos da literatura cristã.

Neste trabalho, vamos nos apoiar, principalmente, da versão para a Língua Portuguesa das Enarrationes in psalmos empreendida pelas Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria Mãe do Cristo - Caxambu (MG), publicado pela Paulus Editora (1977).  Mas, os comentários não se restringirão aos de Santo Agostinho. Sempre que pudermos, acrescentaremos outros autores consagrados e avalizados pela Igreja. 

Enfim, que seja tudo para a Glória de Deus!



11 de agosto de 2016 - Festa de Santa Clara de Assis

Filme sobre a vida de Santa Clara

MAGNIFICAT - Cântico da Virgem Maria


                     «Magníficat» (Lc 1, 46-55)


46.E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,
47.meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
48.porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,
49.porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.
50.Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.
51.Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.
52.Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.
53.Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.
54.Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
55.conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.




M. BROEDERLAM - ANUNCIAÇÃO E VISITAÇÃO


1 - No Magníficat Maria celebra a obra admirável de Deus
1. Maria, inspirando-se na tradição do Antigo Testamento, celebra com o cântico do Magníficat as maravilhas que Deus realizou nela. Esse cântico é a resposta da Virgem ao mistério da Anunciação: o anjo convidou-a a alegrar-se; agora Maria expressa o júbilo de seu espírito em Deus, seu salvador. Sua alegria nasce de ter experimentado pessoalmente o olhar benévolo que Deus dirigiu a ela, criatura pobre e sem influência na história.
Com a expressão Magníficat, versão latina de uma palavra grega que tinha o mesmo significado, é celebrada a grandeza de Deus, que com o anúncio do anjo revela sua onipotência, superando as expectativas e as esperanças do povo da aliança e inclusive os mais nobres desejos da alma humana.
Frente ao Senhor, potente e misericordioso, Maria manifesta o sentimento de sua pequenez: "Minha alma proclama a grandeza do Senhor; alegra meu espírito em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua escrava" (Lc 1,46-48). Provavelmente, o termo grego tapeinosis foi tirado do cântico de Ana, a mãe de Samuel. Com ele indicam a  "humilhação" e a "miséria" de uma mulher estéril (cf. 1 S 1,11), que encomenda sua pena ao Senhor. Com uma expressão semelhante, Maria apresenta sua situação de pobreza e a consciência de sua pequenez perante Deus que, com decisão gratuita, colocou seu olhar sobre ela, jovem humilde de Nazaré, chamando-a a converter-se na mãe do Messias.
2. As palavras "de agora em diante todas as nações me chamarão bem-aventurada" (Lc 1,48), têm como ponto de partida a felicitação de Isabel, que foi a primeira a proclamar a Maria "bendita" (Lc 1,45). O cântico, com certa audácia, prediz que essa proclamação  irá se estendendo e ampliando com um dinamismo incontido. Ao mesmo tempo, testemunha a veneração especial que a comunidade cristã sentiu pela Mãe de Jesus desde o século I. O Magníficat constitui a primícia das diversas expressões de culto, transmitidas de geração em geração, com as quais a Igreja manifesta seu amor à Virgem de Nazaré.
3. "O Poderoso fez em mim maravilhas; seu nome é santo e sua misericórdia chega aos fiéis de geração em geração" (Lc 1,49-50).
O que são essas  "maravilhas" realizadas em Maria pelo Poderoso? A expressão aparece no Antigo Testamento para indicar a libertação do povo de Israel do Egito ou da Babilônia. No Magníficat refere-se ao acontecimento misterioso da concepção virginal de Jesus, acaecido em Nazaré depois do anúncio do anjo.
No Magníficat, cântico verdadeiramente teológico porque revela a experiência do rostro de Deus feita por Maria, Deus não só é o Poderoso, a quem nada é impossível, como havia declarado Gabriel (cf. Lc 1,37), mas também o  Misericordioso, capaz de ternura e fidelidade para com todo ser humano.
4. "Ele faz proezas com seu braço; dispersa os soberbos de coração; derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes; os famintos os sacias de bens e despede os ricos de mãos vazias" (Lc 1,51-53).
Com sua leitura sapiencial da história, Maria nos leva a descobrir os critérios da misteriosa ação de Deus. O Senhor, confundindo os critérios do mundo, vem em auxílio dos pobres e pequenos, em detrimento dos ricos e dos poderosos, e, de modo surpreendente, enche de bens os humildes, que lhe encomendam sua existência (cf. Redemptoris Mater, 37).
Estas palavras do cântico,  ao mesmo tempo em que nos mostram em Maria um modelo concreto e sublime, nos ajudam a compreender que o que atrai a benevolência de Deus é sobretudo a humildade de coração.
5. Por último, o cântico exalta o cumprimento das promessas e a fidelidade de Deus com o seu povo escolhido: "Auxilia a Israel, seu servo,  lembrando-se de sua misericórdia, como havia prometido a nossos pais, em  favor de Abraão e sua descendência para sempre" (Lc 1,54-55).
Maria, cheia de dons divinos, não se detém a contemplar seu caso pessoal, mas compreende que esses dons são uma manifestação da misericórdia de Deus a todo seu povo. Nela Deus cumpre suas promessas com uma fidelidade e generosidade abundantes.
O Magníficat, inspirado no Antigo Testamento e na  espiritualidade da filha de Sião, supera os textos proféticos que estão em sua origem, revelando na "cheia de graça" o início de uma intervenção divina que vai além das  esperanças messiânicas de Israel: o mistério santo da Encarnação do Verbo.
(Catequese de João Paulo II - 6-XI-96)


2 - Magnificat: cântico da Virgem Maria
Queridos irmãos e irmãs

1. Chegamos agora ao final do longo itinerário começado há precisamente cinco anos, na primavera de 2001, pelo meu amado Predecessor, o inesquecível Papa João Paulo II. O grande Papa quisera percorrer nas suas catequeses toda a sequência dos Salmos e dos Cânticos que constituem o tecido orante fundamental da Liturgia das Laudes e das Vésperas. Tendo chegado ao fim desta peregrinação textual, semelhante a uma viagem no jardim florido do louvor, da invocação, da oração e da contemplação, deixemos agora o espaço àquele Cântico que idealmente sela toda a celebração das Vésperas, o Magnificat(Lc1,46-55).
É um cântico que revela em filigrana a espiritualidade dos anawim bíblicos, isto é, daqueles fiéis que se reconhecem "pobres" não só no desapego de qualquer idolatria da riqueza e do poder, mas também na humildade profunda do coração, despojado da tentação do orgulho, aberto à irrupção da graça divina que salva. De facto, todo o Magnificat, que ouvimos agora pela "Capela Sistina", está assinalado por esta "humildade", em grego tapeinosis, que indica uma situação de humildade e pobreza concretas.
2. O primeiro movimento do cântico mariano (cf. Lc 1, 46-50) é uma espécie de voz solista que se eleva em direcção ao céu para alcançar o Senhor. Com efeito, observe-se o ressoar constante da primeira pessoa: "A minha alma... o meu espírito... meu salvador... chamar-me-ão bem-aventurada... fez grandes coisas em mim...". A alma da oração é, portanto, a celebração da graça divina que transbordou no coração e na existência de Maria, tornando-a a Mãe do Senhor. Ouvimos precisamente a voz de Nossa Senhora que fala assim do seu Salvador, que fez maravilhas na sua alma e no seu corpo.
A estrutura íntima do seu canto é, portanto, o louvor, o agradecimento, a alegria reconhecedora. Mas este testemunho pessoal não é solitário, intimista ou puramente individualista, porque a Virgem Mãe está consciente de ter uma missão a cumprir pela humanidade e a sua vicissitude insere-se no âmbito da história da salvação. E assim pode dizer: "A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem" (v. 50). Com este louvor ao Senhor Nossa Senhora dá voz a todas as criaturas remidas, que no seu "Fiat", assim como na figura de Jesus nascido da Virgem, encontram a misericórdia de Deus.
3. Neste ponto desenvolve-se o segundo movimento poético e espiritual do Magnificat (cf. vv. 51-55). Ele possui uma tonalidade mais coral, como que se à voz de Maria se associasse a da inteira comunidade dos fiéis que celebram as opções surpreendentes de Deus. No original grego do Evangelho de Lucas temos sete verbos no aoristo, que indicam igual número de acções que o Senhor realiza de modo permanente na história: "Manifestou o poder do seu braço... dispersou os soberdos. Derrubou os poderosos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens... despediu os ricos... acolheu Israel".
Neste septenário de obras divinas é evidente o "estilo" no qual o Senhor da história inspira o seu comportamento: ele declara-se da parte dos últimos. O seu é um projecto que com frequência está escondido sob o terreno obscuro das vicissitudes humanas, que vêem triunfar "os soberbos, os poderosos e os ricos". Contudo a sua força secreta está destinada a revelar-se no final, para mostrar quem são os verdadeiros prediletos de Deus: "Os que o temem", fiéis à sua palavra; "os humildes, os famintos, Israel seu servo", isto é, a comunidade do povo de Deus que, como Maria, está constituída por aqueles que são "pobres", puros e simples de coração. É aquele "pequeno rebanho" que está convidado a não temer porque ao Pai aprouve conceder-lhe o seu reino (cf. Lc 12, 32). E assim este cântico nos convida a associar-nos a este pequeno rebanho, a ser realmente membros do Povo de Deus na pureza e na simplicidade do coração no amor de Deus.
4. Aceitemos então o convite que no seu comentário ao texto do Magnificat nos dirige santo Ambrósio. O grande Doutor da Igreja diz: "Esteja em cada um a alma de Maria que engrandece o Senhor, esteja em todos o espírito de Maria que exulta em Deus; se, segundo a carne, uma só é a mãe de Cristo, segundo a fé todas as almas geram Cristo; de facto, cada uma acolhe em si o Verbo de Deus... A alma de Maria engrandece o Senhor, e o seu espírito exulta em Deus, porque, consagrada com a alma e com o espírito ao Pai e ao Filho, ela adora com afecto devoto um só Deus, do qual tudo provém, e um só Senhor, em virtude do qual todas as coisas existem" (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 2, 26-27: SAEMO, XI, Milão-Roma 1978, p. 169).
Neste maravilhoso comentário do Magnificat de santo Ambrósio sensibiliza-me de modo particular a palavra surpreendente: "Se, segundo a carne, uma só é a mãe de Cristo, segundo a fé todas as almas geram Cristo: de facto cada uma acolhe em si o Verbo de Deus". Assim o santo Doutor, interpretando as palavras de Nossa Senhora, convida-nos a fazer com que o Senhor encontre um abrigo na nossa alma e na nossa vida. Não devemos apenas levá-lo no coração, mas devemos levá-lo ao mundo, de forma que também nós possamos gerar Cristo para o nosso tempo. Peçamos ao Senhor que nos ajude a magnificá-lo com o Espírito e com a alma de Maria e a levar de novo Cristo ao nosso mundo.

(Papa Bento XVI - Audiência Geral: Quarta-feira, 15 de Fevereiro 2006)





3. O «Magnificat» da Igreja que está a caminho

35. Na fase actual da sua caminhada, a Igreja procura, pois, reencontrar a união de todos os que professam a própria fé em Cristo, para manifestar a obediência ao seu Senhor que orou por esta unidade, antes do seu iminente sacrifício. Ela vai avançando na «sua peregrinação... e anunciando a paixão e a morte do Senhor até que ele venha». [87] «Prosseguindo entre as tentações e tribulações da caminhada, a Igreja é apoiada pela força da graça de Deus, que lhe foi prometida pelo Senhor, para que não se afaste da perfeita fidelidade por causa da fraqueza humana, mas permaneça digna esposa do seu Senhor e, com o auxílio do Espírito Santo, não cesse de se renovar a si própria até que, pela Cruz, chegue á luz que não conhece ocaso». [88]
A Virgem Maria está constantemente presente nesta caminhada de fé do Povo de Deus em direcção à luz. Demonstra-o de modo especial o cântico do «Magnificat», que, tendo jorrado da profundidade da fé de Maria na Visitação, não cessa de vibrar no coração da Igreja ao longo dos séculos. Prova-o a sua recitação quotidiana na liturgia das Vésperas e em muitos outros momentos de devoção, quer pessoal, quer comunitária.

«A minha alma glorifica o Senhor,
e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador,
porque olhou para a humildade da sua serva.
De hoje em diante todas as gerações
hão-de me chamar bem-aventurada.
Porque fez em mim grandes coisas o Todo-poderoso. E santo é o seu nome:
a sua misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos com os desígnios
que eles conceberam;
derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes
encheu de bens os famintos
e aos ricos despediu-os de mãos vazias.
Socorreu Israel, seu servo,
recordando-se da sua misericórdia,
como tinha prometido aos nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre» (Lc 1, 46-55). 


36. Quando Isabel saudou a jovem parente, que acabava de chegar de Nazaré, Maria respondeu com o Magnificat. Na sua saudação, Isabel tinha chamado a Maria: primeiro, «bendita» por causa do «fruto do seu ventre»; e depois, «feliz» (bem-aventurada) por causa da sua fé (cf. Lc 1, 42. 45 ). Estas duas palavras abençoantes referiam-se directamente ao momento da Anunciação. Agora, na Visitação, quando Isabel, na sua saudação, dá um testemunho daquele momento culminante, a fé de Maria enriquece-se de uma nova consciência e de uma nova expressão. Aquilo que no momento da Anunciação permanecia escondido na profundidade da «obediência da fé» dir-se-ia que agora daí irrompe, como uma chama clara e vivificante do espírito. As palavras usadas por Maria, no limiar da casa de Isabel, constituem uma profissão inspirada desta sua fé, na qual se exprime a resposta à palavra da revelação, com a elevação religiosa e poética de todo o seu ser no sentido de Deus. Nessas palavras sublimes, que são ao mesmo tempo muito simples e totalmente inspiradas nos textos sagrados do povo de Israel, [89] transparece a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração. Resplandece nelas um clarão do mistério de Deus, a glória da sua inefável santidade, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem.
Maria é a primeira a participar nesta nova revelação de Deus e, mediante ela, nesta nova «autodoação» de Deus. Por isso proclama: «Grandes coisas fez em mim ... e santo é o seu nome». As suas palavras reflectem a alegria do espírito, difícil de exprimir: «O meu espírito exulta em Deus, meu Salvador». Porque «a verdade profunda, tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos... em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação». [90] No arroubo do seu coração, Maria confessa ter-se encontrado no próprio âmago desta plenitude de Cristo. Está consciente de que em si está a cumprir-se a promessa feita aos pais e, em primeiro lugar, em favor de «Abraão e da sua descendência para sempre»: que em si, portanto, como mãe de Cristo, converge toda a economia salvífica, na qual «de geração em geração» se manifesta Aquele que, como Deus da Aliança, «se recorda da sua misericórdia».
37. A Igreja, que desde o início modela a sua caminhada terrena pela caminhada da Mãe de Deus, repete constantemente, em continuidade com ela, as palavras do Magnificat. Nas profundidades da fé da Virgem Maria na Anunciação e na Visitação, a Igreja vai haurir a verdade acerca do Deus da Aliança; acerca de Deus que é Todo-poderoso e faz «grandes coisas» no homem: «santo é o seu nome». No Magnificat, ela vê debelado nas suas raízes o pecado do princípio da história terrena do homem e da mulher: o pecado da incredulidade e da «pouca fé» em Deus. Contra a «suspeita» que o «pai da mentira» fez nascer no coração de Eva, a primeira mulher, Maria, a quem a tradição costuma chamar «nova Eva» [91] e verdadeira «mãe dos vivos», [92] proclama com vigor a não ofuscada verdade acerca de Deus: o Deus santo e omnipotente, que desde o princípio é a fonte de todas as dádivas, aquele que «fez grandes coisas» nela, Maria, assim como em todo o universo. Deus, ao criar, dá a existência a todas as realidades; e ao criar o homem, dá-lhe a dignidade da imagem e da semelhança consigo, de modo singular em relação a todas as demais criaturas terrestres. E não se detendo na sua vontade de doação, não obstante o pecado do homem, Deus dá-se no Filho: «Amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito» (Jo 3, 16) Maria é a primeira testemunha desta verdade maravilhosa, que se actuará plenamente mediante «as obras e os ensinamentos» (cf. Act 1, 1) do seu Filho e, definitivamente, mediante a sua Cruz e Ressurreição.
A Igreja, que, embora entre «tentações e tribulações», não cessa de repetir com Maria as palavras do Magnificat, «escora-se» na força da verdade sobre Deus, proclamada então com tão extraordinária simplicidade; e, ao mesmo tempo, deseja iluminar com esta mesma verdade acerca de Deus os difíceis e por vezes intrincados caminhos da existência terrena dos homens. A caminhada da Igreja, portanto, já quase no final do Segundo Milénio cristão, implica um empenhamento renovado na própria missão. Segundo Aquele que disse de si: «(Deus) mandou-me a anunciar aos pobres a boa nova» (cf. Lc 4, 18), a Igreja tem procurado, de geração em geração, e procura ainda hoje cumprir esta mesma missão.
O seu amor preferencial pelos pobres acha-se admiravelmente inscrito no Magnificat de Maria. O Deus da Aliança, cantado pela Virgem de Nazaré, com exultação do seu espírito, é ao mesmo tempo aquele que «derruba os poderosos dos tronos e exalta os humildes... enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias ... dispersa os soberbos... e conserva a sua misericórdia para com aqueles que o temem».
Maria está profundamente impregnada do espírito dos «pobres de Javé» que, segundo a oração dos Salmos, esperavam de Deus a própria salvação, pondo nele toda a sua confiança (Sl 25; 31; 35; e 55). Ela, na verdade, proclama o advento do mistério da salvação, a vinda do «Messias dos pobres» (cf. Is 11, 4; 61, 1). Haurindo certeza do coração de Maria, da profundidade da sua fé, expressa nas palavras do Magnificat, a Igreja renova em si, sempre para melhor, essa própria certeza de que não se pode separar a verdade a respeito de Deus que salva, de Deus que é fonte de toda a dádiva, da manifestação do seu amor preferencial pelos pobres e pelos humildes, amor que, depois de cantado no Magnificat, se encontra expresso nas palavras e nas obras de Jesus.
A Igreja, portanto, está bem cônscia ― e na nossa época esta sua certeza reforça-se de modo particular ― não só de que não podem ser separados estes dois elementos da mensagem contida no Magnificat, mas também de que deve outrossim ser salvaguardada cuidadosamente a importância que têm os «pobres» e a «opção em favor dos pobres» na palavra de Deus vivo. Trata-se de temas e problemas organicamente conexos com o sentido cristão da liberdade e da libertação. Maria, «totalmente dependente de Deus e toda ela orientada para Ele, ao lado do seu Filho, é a ícone mais perfeita da liberdade e da libertação da humanidade e do cosmos. É para Maria que a Igreja, da qual ela é Mãe e modelo, deve olhar, a fim de compreender na sua integralidade o sentido da própria missão». [93]
















DIRETÓRIO FRANCISCANO -  CÁNTICO DE LA VIRGEN MARÍA: «Magníficat» (Lc 1, 46-55)

Introdução ao Livro dos Salmos

Introdução ao Livro dos Salmos (Transcrição da Bíblia Ave Maria)



O Saltério é o livro de oração mais conhecido e mais querido do mundo. Assim foi e é para os judeus, assim foi e é para nós, cristãos, assim foi e é do maior agrado de Deus, que o inspirou. É um livro de elevação espiritual, frequentemente usado pelo próprio Jesus Cristo.

Os Salmos são a “voz inata da Igreja” – escreveu São Basílio. Eles contêm o modo e as próprias palavras para louvarmos a Deus convenientemente. São um lindo pomar – dizia Santo Atanásio – com as mais selecionadas e saborosas frutas de todos os demais livros da Escritura Santa.

A palavra salmos é a tradução do termo hebraico tehilim que quer dizer louvores, cânticos, hinos. Esse termo exprime apenas um aspecto do rico conteúdo da coleção, porque nos Salmos encontramos lamentações, cânticos de penitência, hinos de agradecimento, poemas didáticos e súplicas ardentes. Os salmos eram cânticos destinados especialmente ao uso litúrgico do Templo de Jerusalém. Primordialmente, de uso oficial, público. Mas, muitos salmos expressam de maneira apropriadíssima sentimentos religiosos inteiramente pessoais. Na oração particular, nos momentos de nenhum convencionalismo, quantas vezes os fiéis não se vêem retratados com exatidão nas suas entrelinhas!

Os Salmos chegaram a ser as mais populares canções dos tempos áureos da Igreja. Santa Paula, desde Belém, berço de Jesus, escreveu à sua amiga Marcela:
“Na quintazinha de Cristo tudo é campestre. É tanto o silêncio que, afora o canto dos Salmos, não se ouve outra coisa. O lavrador, de mão na rabiça, entoa o aleluia. O ceifeiro, alagado em suor, distrai-se com Salmos. O vinhateiro, empunhando a curva podadeira, canta poemas de Davi. São essas as cantigas da nossa província. Essas, as canções de amor. Isso, o que trauteiam, assobiando, os pastores”.

Para muita gente, porém, os Salmos ainda continuam um pomar fechado, só visitável por pessoas eruditas. Não deve ser assim. Comece a rezar os Salmos, e verá. Eles se recomendam por si mesmos. É normal que aconteça no íntimo de você o que São Jerônimo escreveu a respeito da Bíblia:
“Na casca, fel – no miolo, mel (in córtice féllis, in medúlla méllis)”.
No começo, pode ser amargura, mas no meio, que doçura! Dê um tempinho ao tempo. A verdadeira piedade exige que os Salmos voltem a ocupar o lugar de honra que merecem, segundo desígnio do Espírito Santo, que os inspirou.

A presente tradução teve isto em conta: bem fiel e bem brasileira. Já em remota antiguidade, esses cânticos foram sendo reunidos em coleções. A divisão atual em cinco livros está baseada em expressões evidentes do texto hebraico e também em outras comparações de estilos, métrica (medida de acentos na poesia), etc. As cinco partes atuais são: Primeiro livro – 40 Salmos: 1-40. Segundo livro – 31 Salmos: 41-71. Terceiro livro – 17 Salmos: 72-88. Quarto livro – 17 Salmos: 89-105. Quinto livro – 45 Salmos: 106-150. (Estamos usando, aqui, numeração litúrgica. A numeração hebraica é um algarismo superior.) 150 Salmos.

Já explicamos por que o povo, não sabendo ler ou não tendo livro, com santa inveja dos religiosos que rezavam os Salmos, teve a feliz ideia de saudar Nossa Senhora, Mãe de Jesus, com tantas Ave-Marias quantos são os Salmos – 150. É a chamada “coroa de rosas” (Rosário), atualmente a devoção mais difundida no mundo católico!

O Saltério foi composto por diversas pessoas, em diversas épocas e para diversas finalidades. Por isso, a gente nota repetições, estilos diferentes, diferente intensidade de sentimentos. Por vezes, ajuntaram dois Salmos em um só; outras vezes, dividiram em dois um único Salmo. Tudo isso é perfeitamente compreensível. A comunidade foi aos poucos aperfeiçoando suas composições: daí a perfeição e beleza que temos hoje.

Nome do autor, títulos, inscrições, indicação de circunstâncias da composição e do modo de rezar... tudo isso, que está no comecinho de cada Salmo, tem pouca importância. Mas, mesmo assim, a gente não tira nada, porque está no texto original, e não se pode mexer, de jeito nenhum! Quando, antes do nascimento de Jesus Cristo, os salmos foram traduzidos para o grego, a significação dessas inscrições já era duvidosa ou desconhecida. Mas, o que interessa mesmo é o Salmo como tal, não tanto as anotações do versículo 1. As inscrições do texto original atribuem 74 Salmos a Davi, 10 aos filhos de Coré, 8 a Asaf, 2 a Salomão, 1 a Hemão, 1 a Etão e 1 a Moisés.

Sejam quais tenham sido os seus autores humanos, a inspiração divina revestiu sua beleza natural de um profundo sentido religioso, que fez deles, para sempre, uma inexaurível fonte de vida religiosa e de piedade. O caráter religioso dos Salmos é de uma profundidade incomparável, muito superior a qualquer escrito da Antiguidade. Todas as cordas do sentimento religioso são neles dedilhadas: respeito à majestade divina, gratidão pela misericórdia infinita e pelo perdão de Deus, absoluta confiança na Providência, penitência e contrição ante os próprios pecados, tristeza e temor dos perigos que nos cercam, consolação, coragem, obediência, alegria e esperança. Por outro lado, os poemas messiânicos e as numerosas alusões ao Filho de Davi tornam os Salmos ainda mais familiares às nossas almas cristãs. Exatamente por isso, o lugar todo particular que o saltério assumiu na liturgia da Igreja. Como os Salmos foram compostos bem antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, eles refletem alguns sentimentos menos nobres que aqueles que Jesus ensinaria, especialmente a respeito de vingança e extermínio, que são impulsos naturais contrários à caridade cristã. Como em outras passagens do Antigo Testamento, a justiça divina é descrita nos Salmos de maneira rude e forte. Muitas vezes o ruído das armas perturba a calma da oração. Entretanto, tenhamos em conta dois aspectos, importantes para sabermos suavizar nosso modo de julgar essas passagens de aspecto bárbaro. Por uma parte, os hebreus sempre estiveram convictos de que só Deus é o rei. Consequentemente, ser inimigo do povo é ser inimigo de Deus, é merecer severo castigo! Por outra parte, eles tinham certeza de que o poder do inimigo devia ser destruído no futuro, porque assim o exigia a santidade de Deus. Dessa forma, a vingança, expressa com tanta violência, é atribuída ao próprio Deus. Mas a divina misericórdia sempre acompanha sua justiça. Portanto, não nos afastaremos do verdadeiro espírito dos Salmos quando, procurando penetrar no cerne espiritual, no miolo que está por debaixo da casca dura, os aplicamos à luta interior que dia a dia temos de travar contra nossos inimigos espirituais, nossas más tendências, nossos vícios, especialmente contra o inimigo da nossa salvação, satanás, o eterno condenado.

Sob esse aspecto, continuam superatuais e supereficazes os frequentes e veementes apelos ao auxílio divino. Somos inclinados para as coisas terrenas. Mal conseguimos rezar. “Não sabemos o que devemos pedir, não sabemos rezar como convém”, escreveu o apóstolo Paulo aos Romanos (8,26).

Então, façamos questão de abrir o livro dos Salmos, onde encontraremos maravilhosas formas de oração que nos ensinam como falar com Deus. Em sentido profundo, os Salmos só poderão ser devidamente interpretados por aquele que crê em Jesus Cristo. Isso é evidente quanto aos Salmos Messiânicos. Mas também outros salmos, como numerosos outros textos, só encontram sentido final, completo, à luz da vida do Senhor Jesus. Por exemplo, os sofrimentos do justo são uma clara imagem dos tormentos suportados por Jesus na sua paixão.

Resumindo: o Saltério é, por excelência, o livro de oração da Igreja e da alma cristã. A seguir, veremos alguns grupos de Salmos, de acordo com seu sentido geral. A lista serve também para a gente enriquecer um determinado Salmo com a meditação dos outros que estão citados no mesmo grupo, porque têm colorido semelhante.

Confiança: 22, 26, 120, 130;
Sabedoria: 1, 31, 36, 118;
Meditação: 8, 9, 11, 35, 38, 48;
Louvor: 7, 18, 28, 46, 92, 96, 97, 145;
Lamentação, intensa oração: 24, 31, 32, 43;
Ação de graças: 33, 65, 102, 135;
Salmos reais ou messiânicos: 2, 18, 19, 20, 21, 44, 68, 71, 109, 144.

Divergências nas traduções de várias passagens são compreensíveis, por se tratar de texto muito e muito usado, diariamente. É normal que alguém tenha melhorado alguns versículos ou, ao copiar (aquele tempo, era tudo manuscrito!), tenha tido alguma distração. Mas Deus terá tido cuidado para que nenhuma modificação tenha atingido o substancial. Na numeração dos salmos, existe uma divergência entre o texto hebraico e a versão latina da Vulgata, que foi adotada nas celebrações (liturgia). Essa divergência provém do fato de o texto hebraico dividir em dois o salmo 9. Daí em diante, a numeração do texto latino, presente no breviário e no missal romano, é, em grande parte, de um algarismo inferior ao texto hebraico e é a numeração aceita na presente tradução. Para atender a quem tenha outras bíblias, está sempre colocada, entre parênteses, a numeração hebraica.



Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Ambrósio, bispo
(Ps.1,4.7-8:CSEL64,4-7)             (Séc.IV)

            Embora toda a divina Escritura exale a graça de Deus, o mais suave é o Livro dos Salmos. Moisés, que escreveu os feitos dos patriarcas em simples prosa, quando fez passar através do mar Vermelho o povo dos pais para imperecível admiração, vendo afogados o faraó e seus exércitos, sentiu inflamar-se seu engenho, pois conseguira portentos acima de suas forças, e elevou triunfal cântico ao Senhor. Maria, também, tomou o pandeiro e assim exortava as outras, entoando:

Cantemos ao Senhor, que se cobriu de glória e de honra;
lançou ao mar cavalo e cavaleiro.
  
          A história instrui, a lei ensina, a profecia anuncia, a correção castiga, a moral persuade. Ora, no Livro dos Salmos há proveito para todos e remédio para a salvação do homem. Quem o lê, tem remédio especial para as chagas das paixões. Quem quiser lutar como em ginásio de almas e estádio de virtudes, onde estão preparados diversos gêneros de luta, escolha para si aquele que julgar mais adequado para mais facilmente alcançar a coroa.
            Se alguém quiser recordar e imitar os feitos gloriosos dos antepassados, encontrará compendiada num salmo toda a história de nossos pais, podendo assim enriquecer o tesouro da memória numa breve leitura. Se alguém perscruta a força da lei que está toda no vínculo da caridade (quem ama o próximo, cumpriu a lei), leia então, nos salmos, com quanto amor um só se expôs aos mais graves perigos para repelir o opróbrio de todo o povo. Donde se reconhece não ser a glória da caridade menor do que o triunfo da virtude.
            Que direi sobre o dom da profecia? Aquilo que outros anunciaram por enigmas, só a este, aparece clara e abertamente a promessa de que o Senhor Jesus nasceria de sua linhagem, conforme lhe falou: Porei sobre teu trono o fruto de tuas entranhas. Por conseguinte, nos salmos não apenas nasce Jesus para nós, mas ainda aceita a salvífica paixão de seu corpo, adormece, ressurge, sobe aos céus, assenta-se à direita do Pai. O que homem algum ousaria dizer, só este profeta anunciou e depois o próprio Senhor o manifestou no seu evangelho.

Responsório Sl 56(57),8-9

R. Meu coração está pronto, meu Deus,
está pronto o meu coração.
* Vou cantar e tocar para vós.
V. Desperta, minh’alma, desperta,
despertem a harpa e a lira,

eu irei acordar a aurora!
* Vou cantar e tocar para vós.


Comentário ao Salmo 1 - Os dois caminhos

1.Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores.
2.Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite.
3.Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera.
4.Os ímpios não são assim! Mas são como a palha que o vento leva.
5.Por isso não suportarão o juízo, nem permanecerão os pecadores na assembléia dos justos.
6.Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao passo que o dos ímpios leva à perdição.




Comentário de Santo Agostinho:

1 - "Feliz o homem que não entrou no conselho dos ímpios". Trata-se de nosso Senhor Jesus Cristo, homem e Senhor. "Feliz o homem que não entrou no conselho dos ímpios", como o homem terreno, que consentiu na sugestão da mulher, enganada pela serpente, e desobedeceu aos preceitos de Deus. "Não se deteve no caminho dos pecadores". Cristo, de fato, veio pelo caminho dos pecadores, ao nascer como os pecadores, mas não se deteve, porque não o retiveram as seduções do mundo. "Nem se sentou em cátedra pestífera". Recusou o reinado terrestre e a soberba, com razão considerada cátedra pestilencial, pois quase não existe quem esteja isento da ambição de dominar e do desejo de glória humana. A peste é epidemia que em larga escala se propaga e atinge a todos, ou quase todos. Em sentido acomodatício, cátedra pestífera representaria antes uma doutrina perniciosa, a corroer como gangrena (2Tm 2,17). Em seguida, observemos a ordem das palavras: "entrou, se deteve, sentou-se". Entrou quem de Deus se afastou; deteve-se quem se deleitou no pecado; sentou-se o obstinado na soberba, que não retrocedeu enquanto não foi libertado por quem não entrou no conselho dos ímpios, não se deteve no caminho dos pecadores, nem se sentou em cátedra pestífera.
2 - "Mas aderiu à lei do Senhor e dia e noite a meditará".  "A lei não é destinada ao Justo", diz o Apóstolo (1Tm 1,9). Difere estar dentro da lei e estar sob a lei. Quem se acha dentro da lei, age conforme a lei; quem está sob a lei é coagido por ela. O primeiro é livre, o segundo é escravo. Por conseguinte, uma coisa é a lei escrita, imposta ao escravo e outra, a lei apreendida pelo intelecto de quem pode dispensar a letra. "Dia e noite a meditará", sem interrupção; ou então, por "dia" entende-se a alegria e por "noite" as tribulações. Pois, foi dito: "Abraão exultou por ver o meu dia" (Jo 8,56); e diz-se da tribulação: "Até de noite adverte-me o coração" (Sl 15,7).
3 - "Será como a árvore plantada à beira das águas correntes", isto é, ao lado da própria Sabedoria, que se dignou assumir a natureza humana, para nossa salvação. O próprio homem seria a árvore plantada à beira das águas correntes. Pode-se adotar esta interpretação também para uma passagem de outro salmo: "O rio de Deus encheu-se de água" (Sl 64,20). Talvez se refira ao Espírito Santo, conforme a palavra: "Ele vos batizará com o Espírito Santo" (Mt 3,11). E ainda: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba" (Jo 7,37). E: "Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva, e quem dela beber, nunca mais terá sede. Pois tornar-se-á nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna" (Jo 4, 10-14). Ou talvez, "à beira das águas correntes", isto é, os pecados dos povos, porque no Apocalipse (Ap 17,15), águas significam os povos. Não é absurdo entender por correntes uma queda, referente a delito. A árvore, a saber, nosso Senhor, "produzirá fruto", estabelecerá igrejas, formadas de águas correntes, os povos pecadores, que ele atrai ao caminho, às raízes de sua doutrina. "Em tempo oportuno", depois de glorificado pela ressurreição e ascensão ao céu. Então ele produziu o fruto das Igrejas, após ter enviado o Espírito Santo aos apóstolos, fortificando-lhes a confiança e destinando-os aos povos. "Sua folhagem não murchará", sua palavra não será vã, "toda carne é feno e toda a sua graça como a flor do feno; secou o feno murchou a flor, mas a palavra do Senhor subsiste para sempre" (Is 40,6-8). "Tudo o que fizer há de prosperar", tudo o que aquela árvore produziu. Tudo, frutos e folhas, isto é, obras e palavras.
4 - "Bem diversa será a sorte dos ímpios, poeira que o vento carrega da superfície da terra". Terra aqui significa a estabilidade em Deus, de acordo com a palavra: "O Senhor é a porção de minha herança. A minha herança é excelente" (Sl 15,5,6). "Confia no Senhor, segue seus caminhos e ele te exaltará, dando-te a terra" (Sl 36,34). Tal comparação é aduzida porque a terra visível nutre e contém o homem exterior; o mesmo acontece à terra invisível em relação ao homem interior. Da superfície desta terra, o vento carrega o ímpio, que dizer, a soberba que incha. Dela se precavendo, pede quem se inebriava com a abundância da casa de Deus e bebia da torrente de suas delícias: "Não me pisoteie a soberba" (Sl 35,9.12). A soberba carregou desta terra aquele que asseverou: "Porei meu trono no aquilão, e serei semelhante ao Altíssimo" (Is 14,13). Da superfície desta terra o vento carregou também aquele que, tendo consentido e provado do fruto proibido para se tornar como Deus, escondeu-se da face de Deus (Gn 3,6.8). Pode-se entender especialmente ser essa terra relativa ao homem interior, e ter sido o homem de lá expulso por causa da soberba, conforme está escrito: "De que se orgulha quem é terra e cinza, um ser que, vivendo, lança fora as vísceras"? (Eclo 10,9.10). Não é absurdo afirmar que ele mesmo se lançou para fora do lugar de onde fora expulso.
5 - "Os ímpios não se levantarão no juízo", porque como a poeira serão carregados da superfície da terra. Com razão se afirma serem os soberbos privados do que ambicionam, o poder de julgar. Torna-se isso mais compreensível na frase seguinte: "Nem os pecadores no conselho dos justos". Costuma-se repetir assim, de modo mais explícito, o que já fora declarado. Pecadores são os ímpios. Acima se encontra: "no juízo". Aqui, "no conselho dos justos". Ou certamente, se ímpios e pecadores não se identificam, porque todo ímpio é pecador, todavia nem todo pecador é ímpio. "Os ímpios não prevalecerão no juízo", quer dizer, ressurgirão, mas não para serem julgados, porque já estão condenados a penas bem determinadas. Os pecadores, porém, não ressurgem na assembléia dos justos para julgar, mas provavelmente para serem julgados, conforme se disse a respeito deles: "O fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a obra subsistir, o operário receberá uma recompensa. Aquele, porém, cuja obra for queimada perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo" (1Cor 3,13-15).
6 - "Porque o Senhor conhece o caminho dos justos". Como se afirma que a medicina conhece a saúde e não as doenças, embora as doenças sejam descobertas pela arte médica, assim é possível dizer que o Senhor conhece o caminho dos justos e ignora o dos ímpios. O Senhor nada ignora; no entanto, declara aos pecadores: "Nunca vos conheci" (Mt 7,23). Foi dito que "o caminho dos ímpios leva à perdição", como se dissesse: O Senhor não conhece o caminho dos ímpios. Mas explicitamente se diz que ser ignorado pelo Senhor equivale a perecer, e ser conhecido por ele significa permanecer. O ser relaciona-se com a ciência de Deus, o não ser ao desconhecimento da parte dele, porque o Senhor diz: "Eu sou aquele que é". E: "Eu sou me enviou até vós" (Ex 3,14).


Comentário ao Salmo 2







1.
Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações?

2.
Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo.

3.
Quebremos seu jugo, disseram eles, e sacudamos para longe de nós as suas cadeias!

4.
Aquele, porém, que mora nos céus, se ri, o Senhor os reduz ao ridículo.

5.
Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor:

6.
Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa.

7.
Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei.

8.
Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo.

9.
Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila.

10.
Agora, ó reis, compreendei isto; instruí-vos, ó juízes da terra.

11.
Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam.

Comentário de Santo Agostinho:

1 - "Por que as nações se agitaram e os povos tramaram em vão? Os reis da terra se sublevaram e os príncipes unidos conspiraram contra o Senhor e o seu Cristo?". "Por que" em vez de "em vão". Pois, eles não conseguiram realizar o intento de pôr termo à vida de Cristo. Trata-se dos perseguidores do Senhor, citados também nos Atos dos Apóstolos (At 4,26).
2 - "Quebremos suas cadeias e sacudamos o seu jugo". Embora possa ter outro sentido, aplica-se melhor às pessoas das quais se disse que tramaram em vão. "Quebramos suas cadeias e sacudamos o seu jugo". Cuidemos de que a religião cristã não nos prenda nem nos seja imposta.
3 - "Rir-se-á deles o que habita nos céus. Deles zombará o Senhor". É repetição. Ao invés de dizer "o que habita nos céus", da segunda vez encontra-se "o Senhor". Em lugar de "rir-se-á" temos "zombará". Não se tomem carnalmente essas expressões, como se Deus se risse, ou zombasse, torcendo a boca ou o nariz. Mas, hão de ser entendidas no sentido da força concedida por Deus a seus santos. Estes, olhando o futuro, isto é, o nome de Cristo e o seu domínio estendido aos vindouros e alcançando todas as gentes, compreendam que aqueles tramaram em vão. Tal capacidade de previsão constitui a irrisão e zombaria da parte de Deus. "Rir-se-á deles o que habita nos céus". Se os céus são as almas santas, por meio delas, Deus, que conhece o futuro, rir-se-á e zombará deles.
4 - "Então há de ameaçá-los em sua ira, aterrorizá-los em seu furor". Mostrando mais claramente como lhes falará, declarou: "Aterrorizá-los-á", de modo que "sua ira" seja idêntica a "seu furor". Ira e furor do Senhor não são perturbação da mente e sim força vindicativa, inteiramente justa, pois serve-o submissa toda a criação. Principalmente se considere e mantenha o que consta nos escritos de Salomão: "Senhor poderoso, julgas com tranquilidade, e tudo dispões com grande indulgência" (Sb 12,18). A ira de Deus, portanto, é a comoção da alma, conhecedora da lei de Deus, ao ver o pecador transgredir a mesma lei. Grande é a reivindicação desta comoção das almas justas. Ainda é possível entender a ira de Deus como o próprio obscurecimento da mente dos transgressores da lei de Deus.
5 - "Eu, porém, fui por ele constituído rei em Sião, sua montanha santa, para pregar o mandamento do Senhor". Trata-se, evidentemente, da pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo. Se conforme a opinião de alguns a palavra Sião significa contemplação, a nada mais devemos aplicá-la do que à Igreja, onde cotidianamente a atenção do espírito se eleva à contemplação da glória de Deus, segundo diz o Apóstolo: "E nós todos que, com a face descoberta, contemplamos a glória do Senhor (2Cor 3,18). O sentido é, portanto, o seguinte: Eu, porém, fui por ele constituído rei de sua santa Igreja, denominada monte, devido à elevação e à firmeza. "Fui por ele constituído rei", eu cujas cadeias eles pretendiam quebrar e cujo jugo queriam sacudir. "Para pregar o mandamento do Senhor". Quem não o percebe, se isto continuamente acontece?
6 - "Disse-me o Senhor: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei". Embora pareça a profecia referir-se ao dia do nascimento de Jesus, enquanto homem, no entanto, têm sentido as palavras: Eu hoje te gerei, pois "hoje" significa o presente e na eternidade não há passado, como se algo ainda não existisse, mas apenas no presente, porque aquilo que é eterno existe sempre. Por isso, a autêntica fé católica prega a geração eterna do poder e da sabedoria de Deus, que é o Filho unigênito.
7 - "Pede-me e dar-te-ei as nações por herança". Isto já no tempo lhe acontece, enquanto homem, que se ofereceu em sacrifício, como substituição de todos os sacrifícios, e que também intercede por nós (Rm 8,34). Assim a palavra pede-me refere-se a toda a economia temporal, realizada em prol do gênero humano, a saber, que as nações se unam sob o nome de cristãs e por conseguinte sejam redimidas da morte e possuídas por Deus. "Dar-te-ei as nações por herança", e possuí-las-ás para a salvação delas e colherás frutos espirituais. "E como propriedade os confins da terra". Repete-se. Confins da terra em vez de nações: mas, com maior clareza, para entendermos todas as nações. A propriedade, porém, chama-se acima herança;
8 - "Hás de governá-las com cetro de ferro", com justiça inflexível. "E esmigalhá-las qual vaso de argila", isto é, esmagarás as ambições terrenas, as preocupações lamacentas do velho homem, tudo o que do limo do pecado foi contraído e implantado. "Agora, é reis, entendei". Agora, quer dizer, já renovados, já estraçalhados os revestimentos de barro, isto é, os recipientes carnais do erro, pertencentes à vida passada. Agora entendei. Já sois reis, capazes de reger tudo o que em vós existe de servil e animal, e aptos para a luta, mas não como quem fere o ar, e sim tratando duramente os vossos corpos e reduzindo-os à servidão (1Cor 9,26.27). "Instruí-vos, ó juízes da terra". Nova repetição: "Instruí-vos" em lugar de "entendei"; "ó juízes da terra" em vez de "ó reis". A expressão juízes da terra significa os espirituais. Julgamos o inferior a nós e tudo o que está abaixo do homem espiritual denomina-se, com razão, terra, porque atingido pela nódoa terrena.
9 - "Servi ao Senhor com temor", a fim de não se transformar em soberba e interpelação: reis, juízes da terra. "E exultai diante dele com temor". É ótimo o acréscimo: exultai, para não parecer equivalente a infelicidade a frase: "Servi ao Senhor com temor". De outro lado, evitando uma efusão temerária, acrescentou o salmista, "com temor", como precaução e guarda circunspecta da santificação. É ainda possível o sentido seguinte: "Agora, ó reis, entendei", a saber, agora que fui constituído rei, não vos entristeçais, ó reis da terra, como se vos tivesse sido arrebatado um bem próprio. Ao contrário, entendei e instruí-vos. Ser-vos-á proveitosa a sujeição àquele que vos dá entendimento e instrução. Não vos convém dominar temerariamente; mas servi ao Senhor de todos com temor, precavidos e bem avisados, para de lá não cairdes pela soberba.
10 - "Abraçai a disciplina, para não se irritar o Senhor e não perecerdes no caminho da justiça". É o mesmo que acima: "entendei e instruí-vos". Entender e ser instruído é igual a abraçar a disciplina. No entanto,  a locução "abraçai" bem indica certo refúgio e defesa contra tudo o que poderia causar dano, se não se abraçasse com grande cuidado. "Para não se irritar o Senhor" foi dito condicionalmente; não quando à visão do profeta, que é segura, mas relativamente àqueles que são admoestados; pois se costuma duvidar da ira de Deus quando não claramente revelada. Deviam eles dizer de si mesmos: Abracemos a disciplina para não se irritar o Senhor e não perecermos no caminho da justiça. Acima foi exposto como tomar a expressão: "Não se irritar o Senhor. E não perecerdes no caminho da justiça". Eis o grande castigo, temido por aqueles que prelibaram a doçura da justiça. Quem se desvia do caminho da justiça, há de vagar na maior miséria pelas sendas da iniquidade.
11 - "Quando em breve se inflamar a sua cólera, felizes todos os que nele confiam", isto é, quando vier o castigo preparado para os ímpios e pecadores, não atingirá os que confiam no Senhor e ainda lhes será de grande utilidade, instruindo-os e exaltando-os em vista do reino. Não afirmou: "Quando em breve se inflamar a sua cólera, estarão em segurança todos os que nele confiam", como se dissesse apenas que não serão punidos, mas denominou-os felizes. Representa isso o resumo e o cúmulo de todos os bens. Ao meu ver, em breve, significa algo de repentino, que advirá enquanto os pecadores estiverem pensando que será remoto e em futuro longínquo.